25.3.09

CARTA DE SALVADOR

O Movimento Redemoinho, que une grupos teatrais de 14 estados do país, tem participado do intenso debate que ocorre há anos sobre a reformulação das políticas públicas para a área cultural. Nesse período, o movimento, na contramão de propostas de ação pública baseadas em renúncia fiscal, chegou a formular um projeto de fomento – o Prêmio Teatro Brasileiro – que prevê não apenas a manutenção de trabalhos continuados, mas a produção e a circulação de espetáculos, através de verbas do orçamento da União.

Em paralelo, através de documentos públicos, discussões e artigos de jornal, o Redemoinho reafirmou seu interesse em trabalhar a favor da construção de ações públicas que sejam capazes de desprivatizar e desmercantilizar os processos culturais tais como ocorrem no país hoje.

Era nesse sentido que o movimento aguardava com enorme expectativa a proposta de reformulação da Lei Rouanet, uma das principais ferramentas da distorção privatista que rege o trato de recursos públicos para a área cultural.

O projeto apresentado pelo Ministério da Cultura, o chamado Profic, que se apresenta como o substituto do Pronac, sustenta-se sobre as mesmas bases: o Fundo Nacional de Cultura, os patrocínios privados com renúncia fiscal e o Ficart – Fundo de Investimento Cultural e Artístico. A novidade aparente é a tentativa de articular essas instâncias num sistema capaz de controlar aquilo que surge como excesso nas captações e destinações.

O que permanece intocado, entretanto, é o fundamento da lei – que não é apenas um excesso, mas uma aberração: a gestão privada de recursos públicos.

O monstro privatista continua a ser alimentado, segundo regras aparentemente mais eficazes e rígidas. Mas a serviço do quê? Os departamentos de marketing continuam a gerir recursos públicos, o governo continua a transferir sua responsabilidade para os gerentes das corporações, a cultura continua a ser tratada como negócio. Diminuir a porcentagem da transferência de recursos, com normas moralizadoras, não muda a natureza da omissão, nem o fundamento privatista do processo. É significativo que o anteprojeto do Profic seja permeado por termos da retórica mercantil: valorização, rendimento, vales, difusão, consumo, sustentabilidade - são expressões que não escondem a lógica empresarial que o anima.

A idéia de um sistema cultural surge conformada pela imagem de um mercado que precisa ser criado, amparado, estimulado ao preço da própria cultura, quando se pretende algo mais do que a forma mercadoria. Diante disso, o movimento Redemoinho não reconhece no Profic uma disposição a enfrentar o verdadeiro problema das políticas públicas para a cultura no país: seu caráter privatista.

No Profic, o Redemoinho reconhece no Fundo Nacional de Cultura a única possibilidade de ação que possa realmente se caracterizar como instrumento de política pública. Nesse sentido, este Movimento pretende ocupar os espaços de discussão sobre o mesmo junto ao MINC e à sociedade. Além disso, o Redemoinho defende uma política pública para a cultura que contemple vários programas (e não a renúncia fiscal como programa único) com recursos orçamentários próprios e regras democráticas estabelecidas em lei como política de Estado.

Não haverá transformação cultural enquanto as ações humanas forem organizadas pela lógica da eficácia mercantil e a cidadania for construída na perspectiva do consumo.

REDEMOINHO
Movimento Brasileiro de Espaços de Criação, Compartilhamento e Pesquisa Teatral
V Encontro Nacional, Salvador, Bahia, 24 de março de 2009

13.2.09

um retrato acurado da homofobia brasileira

“Deus fez o homem e a mulher [com sexos diferentes] para que cumpram seu papel e tenham filhos” (frase popular, anônima, que tem a concordância de 11 em cada 12 brasileiros/as)

participei, durante o fórum social mundial 2009, em belém, de um painel que apresentava esta pesquisa inédita aqui, chancelada por dois dos mais importantes institutos de pesquisa do mundo: a fundação perseu abramo (brasil) e rosa luxemburgo (alemanha).

conheçam os resultados inéditos da pesquisa "Diversidade Sexual e Homofobia no Brasil - Intolerância e respeito às diferenças sexuais", aqui.

link:
http://www2.fpa.org.br/portal/modules/news/index.php?storytopic=1770

vila do sossego

gente. tanto trabalho para dar conta e eu aqui escrevendo que redescobri zé ramalho no meu ipod. eu, que proclamei aos dezoito ventos e cento e vinte subventos que detestava zé ramalho, fagner, alceu, estou tendo que engolir minha própria língua, as always.

tô viciada numa música no meu áipódi. é "vila do sossego", do zé ramalho, cantada pela cássia eller. eu com minha formação pequeno-burguesa-de-mpb-mainstream-globo-de-ouro acabei por não mergulhar desde cedo nestas estrelas fumegantes do norte, como alceu, zé, fagner, a não ser pelas versões lindas que deles fizeram nomes como elis, gal e alguns baianos. músicas, aliás, que demorei cerca de uns 30 anos para descobrir a verdadeira autoria. ai ai. um pouco de desatenção, e a ignorância já grassa, para todo mundo debaixo do sol.

e, olha. fui procurar o zé ramalho cantando sua própria música e amei também. eu já desconfiava de uma ferocidade épica do zé ramalho, que eu achava que ia gostar dele, mas tinha preguiça de achar as pérolas, logo eu, uma encontradora de tesouros.

bom, fato é, trombei com vila do sossego. abaixo, letra, versão da cássia e versão do zé. lindas, lindas.

(em negrito, as palavras que eu mais gosto de pronunciar):

Vila Do Sossego
(Zé Ramalho)
Oh eu não sei se eram os antigos que diziam
Em seus papiros papillon já me dizia
Que nas torturas toda carne se trai
E normalmente, comumente, fatalmente, felizmente
Displicentemente o nervo se contrai
Oh oh oh oh com precisão
Nos aviões que vomitavam pára-quedas
Nas casamatas, casas vivas, caso morras
E nos delírios, meus grilos temer
O casamento, rompimento, sacramento, documento
Como um passatempo quero mais te ver
Oh oh oh oh com aflição
Meu treponema não é pálido, nem viscoso
Os meus gametas se agrupam no meu som
E as querubinas meninas rever
Um compromisso submisso, rebuliço no cortiço
Chame o padre ciço para me benzer
Oh oh oh oh com devoção

vila do sossego com cássia eller (só som):



vila do sossego com zé ramalho:

11.2.09

o preço da "segurança" na suíça



(...) Durante a campanha, um polêmico cartaz do SVP mostrava bem as posições políticas do partido. A imagem trazia três ovelhas brancas sobre uma bandeira da Suíça, enquanto uma ovelha negra era chutada para fora do espaço. Abaixo disso, a frase "Para criar segurança".

mais, aqui.

9.2.09

por princípio, sou furiosamente contra qualquer dogma e religião. furiosamente.

encontro algum sossego apenas em algumas manifestações, as mais libertas, como o candomblé e o budismo. penso (e sinto) que ninguém nesta vida deveria ser obrigado a encontrar conforto e remédio em dogmas morais castradores, em normas de conduta artificiais, em princípios "divinos" tão divinos quanto o mijo do michê em copacabana (este, sim, dourado), a sola desbotada do meu tênis, o escarro do vendedor idoso na teodoro sampaio.

no entanto 1, acredito numa poética divina. deixei de ser atéia quando li guimarães rosa (obras completas). entendi que poderia haver uma inteligência sobre-humana na poética e na filosofia.

no entanto 2, vocês não imaginam como desprezo o mau-gosto assassino de cultos como o católico (e o reacionário capenga, estúpido e a-histórico bento dezesseis, a súmula em si do capeta), o evangélico pentecostal (verdadeira AIDs que domina hoje concessões de ráio e tv, além de atuarem como um coronelado moral e estupidificado nas votações pró-união estável e aborto), evangélicos em geral, mórmons, carismáticos, igreja da bola de neve, etc etc etc, todos com seus machismo encalacrado na garganta, a violência pronta para enfiar uma faca na garganta com seus gritos cafonas, horríveis, seus cultos indignos, essa filistéia desesperada.

todas as religiões são um assédio moral e todos os religiosos uns mitômanos.

no entanto 3, ouvi uma fala do frei betto (oriundo da igreja católica, mas possuidor de uma história irretocável na construção e nas lutas da esquerda brasileira contra a ditadura, e de fomento aos movimentos sociais) durante o fórum social mundial 2009, em belém, que gostaria de reproduzir aqui. atenção também ao público.

captei o vídeo com meu celular, por isso a qualidade não está tão boa, mas do meio pro fim melhora muito.